O que o paciente lembra: escuta e cuidado humano

O QUE O PACIENTE LEMBRA. Autor: Dr. Diego Sebastián Vela


Sobre a desumanização da medicina e aquilo que a tecnologia não substitui

Em “O que o paciente lembra”, o Dr. Diego Sebastián Vela reflete sobre a escuta, o tempo da consulta e o cuidado de quem cuida. Compartilhamos uma tradução de seu texto sobre a dimensão humana do atendimento médico. As reflexões e experiências narradas a seguir são do autor.

São três horas da manhã em um pronto-socorro. Entra uma senhora de setenta e oito anos. Veio sozinha, em um carro contratado, porque não quis incomodar a filha, que trabalha cedo. Sente dor no peito há algum tempo e está com medo, embora não vá usar essa palavra.

Na hora e meia seguinte, vão medir sua pressão, fazer um eletrocardiograma, coletar sangue, deixá-la em uma maca e pedir que aguarde os resultados. Tudo isso está sendo feito corretamente. Mesmo assim, quando a filha chegar, ela vai dizer apenas uma frase: “Ninguém me explicou nada”.

Escuto essa frase há anos, em consultórios e prontos-socorros, no setor público e no privado, em instituições com recursos e em unidades sem laboratório. É uma frase clinicamente curiosa, porque convive com outra: “Fui bem atendida”. O processo foi correto — o exame foi solicitado, o diagnóstico foi feito, a receita foi emitida — e, ainda assim, a pessoa saiu com a sensação de não ter sido atendida.

Essa distância tem um nome: desumanização da prática médica. E convém começar dizendo algo que quase nunca se diz.


“Não é culpa de médicos frios. É o que acontece com pessoas que querem fazer as coisas bem dentro de um sistema que deixou de lhes dar tempo para fazê-las bem.”


Como isso acontece?

Acontece devagar. Quando a agenda prevê consultas de doze minutos que, na prática, viram oito. Quando o consultório exige preencher uma tela que pede mais atenção do que a pessoa à frente. Quando o médico atende quarenta pacientes em uma tarde porque, com menos, não consegue pagar as contas. Há estudos que mediram quanto tempo um médico leva para interromper o relato inicial do paciente: cerca de onze segundos. Onze segundos são menos do que alguém precisa para organizar a primeira ideia do que veio dizer.

Isso tem um custo diagnóstico concreto: a pessoa chega com dor nas costas e sai sem mencionar a queda, o sangramento, o medo ou a situação de violência que de fato a trouxe. A conversa clínica continua sendo um dos recursos mais valiosos que temos. Interrompê-la é como desligar o tomógrafo no meio do exame.

No pronto-socorro, é pior, porque tudo se amplia. O paciente chega em seu pior momento, com dor, medo e sem informação. Primeiro encontra um balcão, um formulário, uma espera que ninguém explica. A triagem o classifica em trinta segundos com uma lógica correta que não lhe foi explicada, e ele interpreta o pior: não acreditam nele. A espera sem explicação é vivida como abandono. A mesma espera, explicada, se torna mais tolerável.

Depois há cenas que ficam gravadas em quem trabalha em emergências. Um diagnóstico grave informado em pé, no corredor, com outras pessoas ouvindo. Uma morte comunicada entre duas macas porque não havia lugar melhor. Um idoso que passa doze horas em observação sem janela, relógio, óculos, aparelho auditivo ou companhia, e que de madrugada começa a ficar confuso e querer ir embora.

Essa última situação tem um nome médico — delirium — e não é um detalhe: está associada a maior mortalidade, mais dias de internação e comprometimento cognitivo que pode persistir. Na prevenção, o autor destaca medidas de cuidado como luz, orientação, respeito ao sono e presença da família.

Por que isso vai além da boa educação

Por muito tempo, tratamos isso como o lado menos importante da profissão, um complemento para quando sobra tempo. A evidência sugere outra coisa. O autor aponta pesquisas que relacionam maior empatia médica a melhores resultados no cuidado do diabetes. Compreender para que serve um tratamento também importa: diante de uma dúvida ou possível efeito adverso, o paciente precisa saber com quem conversar, em vez de interromper a medicação por conta própria.

O autor também convida a pensar no papel da comunicação nos conflitos entre médicos e pacientes. Explicar o que vai acontecer, deixar a pessoa falar e oferecer tempo podem influenciar a experiência de cuidado. Sentir que o profissional está ao seu lado faz diferença.


“Escutar não é o que fazemos além de tratar. Em muitos casos, faz parte de como tratamos.”


Quem cuida também sofre

Seria injusto escrever tudo isso sem contar a outra metade. Uma equipe exausta não consegue sustentar presença. O desgaste profissional tem entre seus componentes centrais a despersonalização: deixar de ver pessoas para conseguir continuar funcionando. Plantões de vinte e quatro horas seguidos, múltiplos empregos, salários que obrigam a acumular trabalhos, violência nos serviços de urgência e um profissional que, depois de um evento adverso, fica sozinho com a culpa, sem um contato da instituição.

Pedir acolhimento a uma equipe sem garantir descanso, pessoal suficiente e apoio é uma maneira elegante de transferir uma falha de gestão para a consciência de cada trabalhador. A humanização do cuidado começa pela humanização das condições de trabalho.

O que o paciente lembra: reflexão sobre tecnologia e cuidado humano

O papel da tecnologia no cuidado

É tentador apontar para o computador, os algoritmos ou a inteligência artificial. Mas a tecnologia não desumaniza sozinha: isso ocorre quando ela é incorporada sem reorganizar o trabalho em torno do paciente. Bem utilizada, pode devolver minutos ao encontro: permitir que a máquina registre enquanto o médico olha, que os resultados cheguem explicados em linguagem compreensível e que um paciente fragilizado não precise viajar duzentos quilômetros para uma consulta de acompanhamento.

A pergunta diante de cada novidade é se ela devolve tempo com o paciente ou o retira. Há coisas que nenhuma máquina fará. Nenhuma inteligência artificial vai se sentar ao lado da maca daquela senhora de setenta e oito anos às três da manhã. Nenhuma tela vai segurar a mão de um pai enquanto lhe dizem que seu filho não respondeu ao tratamento.

Nenhuma pontuação substitui uma pergunta essencial da consulta: “O que mais preocupa você em tudo isso?”. E nenhuma imagem substitui o gesto de examinar um abdome. O exame físico, mesmo quando a ultrassonografia oferece mais informações, também comunica ao paciente que seu corpo importa e que não provoca medo, repulsa ou indiferença.

O que podemos fazer

Há atitudes simples que podem ser revistas: não interromper o primeiro minuto do relato; apresentar nome e função; sentar para conversar; explicar em linguagem clara e pedir que a pessoa conte com suas palavras como seguirá a orientação. Fornecer instruções por escrito, com sinais de alerta claros. Comunicar notícias difíceis em um espaço reservado. Facilitar a presença da família. E cuidar de quem cuida.

Muitas dessas atitudes podem ser observadas e avaliadas. Ao final, o paciente talvez não se lembre da pontuação calculada ou do protocolo aplicado. Lembra se olharam em seus olhos. Essa memória pode influenciar a confiança no serviço, a disposição para procurar ajuda e a maneira como compreende o tratamento.


A medicina terá mais dados, mais precisão e mais máquinas. Preservar o cuidado humano depende de nós.


Dr. Diego Sebastián Vela, autor de O que o paciente lembra

(Você pode acessar o site do Dr. Vela clicando em sua foto.)

Autor: Dr. Diego Sebastián Vela. Registro profissional na província de Buenos Aires, Argentina: M.P. 63.655.
O texto original o apresenta como especialista em Medicina Crítica e Emergências e diretor médico da UDI Villa Rosa, no município de Pilar, Argentina.

Áreas de atuação apresentadas no texto original:

O texto original informa que o Dr. Vela se formou na Universidad Nacional de Rosario e possui certificações da Sociedad Argentina de Terapia Intensiva (SATI) e da Universidad Austral.

A apresentação do autor destaca sua atualização acadêmica e experiência na liderança de equipes multidisciplinares em contextos de alta demanda assistencial. Consulte seu site para informações profissionais atualizadas.

O QUE O PACIENTE LEMBRA. Autor: Dr. Diego Sebastián Vela

Uma leitura de “O que o paciente lembra”

Nota editorial: “O que o paciente lembra” convida a pensar na consulta a partir de quem recebe e de quem oferece cuidado. Escutar, explicar com clareza e reconhecer o cansaço do profissional são os eixos desta reflexão. Esta versão traduz e adapta a leitura publicada no site original; algumas afirmações clínicas foram formuladas com maior cautela. O artigo não substitui orientação individual.

Leitura relacionada: para aprofundar um dos temas de “O que o paciente lembra”, conheça a reflexão sobre estresse no trabalho e esgotamento.


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